METAMORFOSE COLETIVA

Lisa Alves - Brasília/DF

Sexta-feira, Agosto 22, 2008


Imagem: Victor Cauduro


MANIFESTO POTENCIALISTA

CAPÍTULO - 22.1 DA ENGENHARIA REVERSA E DA ENGENHARIA SOCIAL.

“Aqueles que tiveram a oportunidade de se consagrar nos estudos científicos
deverão ser os primeiros a pôr seus conhecimentos a serviço da Humanidade.”
Karl Marx



Este texto está sendo digitado num computador contrabandeado do Paraguai. Trata-se de uma prática comum na maioria das cidades do Brasil: a venda de produtos eletrônicos oriundos de mercados contrabandistas. As lojas de informática especializaram-se em montar microcomputadores conforme a vontade do comprador, que opta pelo processador, pelas memórias RAM, pela placa-mãe e pelo HD que seja de seu interesse – ou compatível com suas finanças. O resultado costuma ser bastante positivo: no mínimo 37% mais barato que um PC “legal”. Garantia geralmente de um ano para todos os componentes. No caso deste monitor Samsung – o selo da Cidade do Leste não deixa dúvidas sobre sua origem – a garantia foi de três anos. E, por incrível que possa parecer, as lojas que trabalham com estes computadores contrabandeados concedem até nota fiscal.
O editor de texto utilizado para a composição deste capítulo é o Word 2003, que faz parte do pacote Office XP, instalado integralmente nesta máquina. O que inclui o gerador de slides PowerPoint, a planilha eletrônica Excel, o Access e dois outros programas cuja serventia é um completo mistério. O sistema operacional é o Windows XP, muitos apologistas do Linux vão chiar com esta afirmação. Se servir de desculpa, há também o Linux-Kurumin instalado nesta máquina em outra partição, porém não interessa. Qualquer pessoa tem o direito de escolher os softwares que deseja utilizar desde que não pague por eles. Além do Windows XP, do Office, ambos os produtos da todo-poderosa Microsoft, neste computador estão instalados o antivírus Norton 2005, da Symantec, uma versão eletrônica do dicionário Houaiss (com o mesmo número de verbetes e recursos idênticos), o Acrobat 4.0 e o Photo Shop, ambos da Adobe, o CorelDRAW 11, da Corel, além de dezenas de pequenos aplicativos como ACDSee, Globalink e Download Accelerator que possuem seriais e teoricamente exigiriam licenças. Claro, teoricamente.
Há bastantes jogos no disco rígido de algumas das gigantes do entretenimento eletrônico, como Nintendo, Sony, Rockstar, Ubisoft, Sega, Atari, Konami, Capcom, SNK e Electronic Arts. Todos esses programas, aplicativos e jogos somados custariam uma fortuna. Obviamente, não foi pago nenhum centavo por eles. E, para os que tiverem interesse em ter acesso a estes softwares, estão guardados todos os CDs de instalação, os quais podem ser copiados à exaustão com muita boa-vontade e com custo zero.
Este PC guarda cem mil músicas em formato MP3. Em sua maioria, álbuns completos abarcando uma variedade incrível de gêneros. Há alguns dos melhores trabalhos de Chico Buarque, Cartola, Chico Science, Mercedes Sosa, Tom Jobim, Marcelo D2, Tim Maia, Toquinho, Belchior, Elis Regina, Oswaldo Montenegro, Adriana Calcanhoto, Jorge Ben Jor, BNegão, Ney Matogrosso, Bezerra da Silva, Dicró, Nara Leão, MV Bill, Milton Nascimento e Cazuza. Todos os álbuns da Legião Urbana, Camisa de Vênus, Paralamas do Sucesso, Racionais, Secos & Molhados, Engenheiros do Havaí, Los Hermanos, Pato Fu, Mutantes, Cordel do Fogo Encantado, Sepultura e de inúmeras bandas nacionais de maior ou menor repercussão. Pelo menos noventa trabalhos de música clássica e apesar das obras de Beethoven ou Bach já terem se tornado patrimônio da humanidade, podendo ser exploradas à exaustão, os músicos que executaram as versões podem, segunda a legislação vigente, requerer direitos autorais – o que não nos preocupa nem um pouco.
Todos os discos dos Beatles também estão aqui. Todos dos Rolling Stones, Velvet Underground, The Smiths, The Cure, Deep Purple, Joy Division, Simon & Garfunkel, Rage Against the Machine, Nirvana, Jethro Tull, U2, Pink Floyd, Led Zeppelin, Queen e The Clash. Alguns do Moody Blues, Men at Work, 2Pac, Kraftwerk, Pet Shop Boys, Louis Armstrong, De La Soul, Bob Dylan, Sex Pistols, Frank Sinatra, Ray Charles, James Brow, Coltrane, Miles Davis, Little Richard e Elvis Presley. Quarto trabalhos do Grand Funk, três do Funkadelic e dois do Afrika Bambaata. Pelo menos um CD de Linda Ronstadt, Morcheeba, Tangerine Dream, Paco de Lucia, Pato Banton, Ennio Morricone, Pizzicato Five e Mago de Oz. Muito David Bowie... Melhor parar por aqui.
Um exemplo retumbante da acessibilidade que o fenômeno da MP3 promoveu. Esta lista pode ter tratado pouco de autores nacionais, mas foi de modo intencional. O caso é que mesmo oficialmente, ou seja, em lojas de CDs, há dificuldade explícita de encontrar trabalhos de MPB. Bossa nova, samba e chorinho são geralmente limitados há alguns nomes ou coletâneas restritivas. Outras preciosidades foram esquecidas pela indústria fonográfica, substituídas pela mediocridade domingueira e pela prostituição musical do Espetáculo. O Movimento Potencialista está reunindo trabalhos raros da música popular e em breve estaremos disponibilizando pela internet – se as gravadoras não têm interesse, nós temos! – para tanto contamos com o apoio de colaboradores, que possam disponibilizar seus acervos.
Além de músicas baixadas “ilegalmente” na internet e de jogos eletrônicos escandalosamente pirateados, este computador tem filmes, programas que transformam CDs de áudio convencionais em MP3, gravador de DVD e programas que quebram o código dos DVD originais e de jogos de Playstation 2, possibilitando a feitura de cópias. Há livros em formato PDF, como, por exemplo, os notáveis textos de Campos de Carvalho que há muito foram esquecidos pelo mercado editorial. Também obras que estão disponíveis em qualquer livraria do país, pois, convenhamos, não dá para pagar tanto por um livro. E quadrinhos temos aos montes, a maioria baixada do site Rapadura Açucarada, que foi pioneiro na digitalização de HQs no Brasil.
A prática da Engenharia Social está revolucionando os métodos de transmissão de informação, colocando a arte contemporânea mais próxima da população em geral (mesmo que a internet ainda não esteja tão próxima). Obviamente apenas uma restrita parcela da população tem acesso a computadores – quadro que precisa ser urgentemente alterado, quebrar patentes é uma forma de realizar isto –, mas mesmo os que não fazem parte desta restrita parcela que possui ou tem acesso a computadores, mesmo estes acabam se beneficiando ao adquirir um CD “genérico”, que pode custar trinta vezes menos que um CD original. Há de se reconhecer que a popularização do CD no Brasil se deu graças à pirataria – ou melhor, graças à Engenharia Reversa. E a popularização do DVD seguiu os mesmos passos. Mas afinal, podem estar se perguntando alguns, o que é a Engenharia Reversa e a Engenharia Social?

Até meados do século XX, as artes em geral tinham alicerces ainda sólidos fincados na infra-estrutura da arte burguesa – embora seus temas já tivessem fugido da órbita elitista e almejasse uma concepção genuína para a velocidade e o frenetismo do recém-iniciado século, a arte continuava restrita a uma minoria e sua circulação era dependente dos salões, das galerias e dos museus. Claro que essas exposições eram realizadas geralmente para intelectuais ou elites um pouco mais abertas, dispostas a experimentar novos conceitos e experiências estéticas surpreendentes, pois as extravagâncias modernas estavam distantes demais do grosso da população.
Talvez se possa dizer que do pós-guerra em diante iniciou-se não só a fase em que o povo começou a ditar os caminhos da arte , também, e principalmente, nasceu a reprodutibilidade técnica das obras de arte. Ambos os eventos tem uma ligação estrita, porque se era o povo agora o grande consumidor de arte (como nos casos do samba brasileiro, do jazz, do blues e por fim do rock), era necessário a produção da arte em massa e, ao contrário do que pensam muitos, a produção em massa de cultura não empobreceu a arte, mas sim sua manipulação por empresários gananciosos, dispostos a tudo para sustentar a inacreditavelmente lucrativa indústria do Espetáculo. Esta revolução popular, a verdadeira vanguarda artística do século XX, substituiu a música clássica pela canção, as pinturas e os afrescos pelos quadrinhos e grafites, a ópera pelo cinema e a monotonia do balé pelo delírio do twist e do funk, fenômenos musicais que tomaram o mundo num instante juntamente com suas danças frenéticas. Neste ponto vale ressaltar não somente a importância da guitarra elétrica, que se tornou imediatamente símbolo da juventude, pois o denominador comum da maioria dos ritmos populares do século XX, principalmente dos anos 50 em diante, do samba ao rock’n’roll, é a forte presença de percussão. Geralmente influências africanas, sem as quais a música continuaria sendo harmônica, melódica, mas com zero por cento de suingue.
Apropriando-se das forças criativas em benefício próprio, o capitalismo se viu impelido a reforçar suas políticas de propriedade intelectual, que se tornaram de repente mais necessárias do que nunca e a fim de baratear custos e de possibilitar cifras ainda maiores, as tecnologias de reprodução precisavam ser constantemente aprimoradas. Isso gerou um curioso paradoxo, porque todas as vezes em que surgiam novas tecnologias, mais fácil se tornava a reprodução, não só para a indústria, bem como para o cidadão comum. Os primeiros discos graváveis de resina ou cera eram por demais toscos e caros e na época ninguém se preocupava seriamente com cópias – até porque esses discos se destinavam à gravação de sons ambientes. Mas quando surgiu as fitas magnéticas, tudo foi mudando lentamente de figura, e, de repente, se tornou relativamente barato realizar gravações. A fita K7 de áudio e audiovisual dominou o mercado da reprodução por décadas, causando prejuízos – ainda que mínimos – à indústria do Espetáculo. Houve reações. A famigerada Recording Industry Association of América, por exemplo, se esforçou por proibir a produção dos gravadores de fita, porém o máximo que conseguiu foi restringir o comércio das chamadas DAT (Digital Audio Tape). Nem imaginavam que o verdadeiro fenômeno estava por vir. Quando apareceu o primeiro CD gravável e especialmente quando o CD gravável se tornou acessível, a indústria fonográfica viu-se diante de uma realidade totalmente nova, pois, em países como o Brasil, a pirataria passou a ter rendimentos mais altos do que as gravadoras oficiais, a ponto de colocar o sistema produtor de entretenimento à beira de um colapso. E a indústria descobriria mais tarde, sempre da pior maneira possível, que o CD fora apenas o princípio.
Todos se lembram do caso Napster e do alvoroço que provocou um jovem estudante de cabelos arrepiados que teve a brilhante idéia de utilizar redes p2p para compartilhar músicas gratuitamente pela internet em formato MP3. A indústria reagiu imediatamente, movendo infinitos processos contra a Napster Inc., que acabou nas mãos da Bertelsmann, um dos grandes nomes da indústria do entretenimento fonográfico. Assim foi decretado a morte do Napster, não de sua iniciativa revolucionária. A idéia fora lançada e mais de dez alternativas possíveis, de melhor ou pior qualidade, de maior ou menor eficiência, surgiram na internet, para cobrir o vazio deixado pela oficialização do Napster. Daí vieram os sistemas de compartilhamento de arquivos, a segunda geração das redes peer-to-peer , entre os mais famosos o KaZaA, o Imesh e o Morpheus, que fizeram por anos a alegria de tantos usuários.
Isso é a Engenharia Reversa, a capacidade de burlar a inflexibilidade dos sistemas regidos pelas leis pré-históricas de direitos autorais, para o benefício geral das massas. Nesses sistemas tecem-se relações muito interessantes entre indivíduos totalmente alheios uns aos outros, de cooperativismo, camaradagem e diletantismo, que desmentem o capitalismo em sua essência e revelam que, dando-lhes condições para tanto, as pessoas podem ser muito mais solidárias do que se imagina. Um dos exemplos mais notáveis é a campanha internacional que vinha sendo realizada na rede, pelo recrutamento de ciberpiratas para trabalharem na criação e aprimoração do emulador de Playstation 2. Mas há outros fatos que merecerem ser listados:
1º) A grande maioria daqueles que criam esses sistemas alternativos não espera receber nada com isso, além do prazer de trocar arquivos com outros internautas e de disponibilizar seus próprios arquivos;
2º) Para fazer parte de uma rede de compartilhamento, quase nunca é obrigatório que se disponibilize arquivos para os outros usuários do sistema. Porém a compreensão geral de que se todos agirem assim, fechando suas portas, não haverá arquivo algum para se baixar, desencoraja essas posturas (as pessoas se auto-regulam, sancionam inteligentemente suas próprias leis);
3º) Sempre quando um desses sistemas é desmantelado, cria-se uma alternativa ainda mais impenetrável, que logo é novamente colocada na internet para a alegria de milhões de usuários;
4º) Trocando-se arquivos na internet, favore-se uma postura diferenciada daquela que por tantos anos imperou na Sociedade do Espetáculo. Ao invés de seguir em linha reta, a cultura agora se expande para os lados, tão dinâmica que faz inveja à mais aprimorada campanha de marketing de Hollywood e sem sofrer os esperados efeitos da cultura de ocasião: aquela arte datada, própria para se ver agora e incompreensível na manhã seguinte. Não é à toa que os sites de compartilhamento colocam lado a lado para se baixar as maiores novidades do cinema, que estrearam nos EUA há menos de uma semana, obras-primas com mais de quarenta anos, além de seriados esquecidos ou ignorados por muitos, desenhos animados que são verdadeiros achados, e curtas-metragem que nunca chegariam a locadora alguma. A miscelânea cultural ignora idades, sexos ou prazos de validade. Nada é mais anacrônico que a internet.

E a contravenção dos direitos autorais ameaça agora Hollywood, que começa a sentir no bolso a facilidade que se tornou baixar filmes na internet, graças ao melhoramento da velocidade da rede mundial de informação e aos novos sistemas de compartilhamento, chamados torrents, muito mais eficientes do que aqueles que existiam até então. Além da indústria cinematográfica, a telefonia em breve estará perdendo milhões para as ligações feitas através da internet, em sistemas como o Skype, que faltamente seguirá os mesmos passos do Napster, aliando-se à iniciativa privada. O caminho, entretanto, terá sido indicado e os engenheiros sociais da rede mundial de informação elaborarão outras maneiras de chegarmos aos mesmos resultados: ligações gratuitas para qualquer ponto da Terra.

Não há sequer meios de imaginar no que mais as tecnologias da informática e da microeletrônica vão nos favorecer. Apesar da empolgação, convém que não nos empolguemos exageradamente: a revolução não será baixada na internet. O ciberespaço é um meio, não um fim.

Alguns acreditaram que a reprodutibilidade técnica de obras de arte enfraqueceria a arte enquanto tal e por fim a transformaria num reles produto. Porém não foi a reprodutibilidade que lançou a arte na mesma prateleira das mercadorias e sim a indústria do Espetáculo. Agora que não dependemos mais da indústria para reproduzir infinitamente as criações humanas, devemos voltar nossos esforços na destruição da indústria e dos demais organismos que sustentam idéias obsoletas como a propriedade intelectual e os direitos autorais.
O xerox foi uma das invenções mais importantes do homem e está em qualquer esquina do centro de qualquer cidade. Deve servir para algo mais do que tirar cópias de documentos e contratos.
Viva a pirataria!
A propriedade intelectual é um plágio!




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