CINEMA
Título Original: Quanto Vale ou é por Quilo?
Gênero: Drama
Duração: 104 min.
Lançamento (Brasil): 2005
Estúdio: Agravo Produções Cinematográficas S/C Ltda.
Direção: Sérgio Bianchi
Roteiro: Sérgio Bianchi, Eduardo Benaim e Newton Canitto
Quanto vale ou é por quilo?
Chega da obviedade do cinema brasileiro: miséria e violência são tratadas como novidades. Tem gente que se surpreendeu com a realidade de
Cidade de Deus e
Tropa de Elite como se a miséria e violência humana fossem filhos gerados em um útero fecundado da própria miséria e violência. Cadê a raiz? Alguém esqueceu de mostrar o porquê de um ser humano chegar ao ponto de atirar no outro. A policia trabalha, o bandido também trabalha, a policia come, o bandido também come, a policia paga para viver e o bandido idem. Consumir é necessário, quem não consome, some! O “senhor de todo o mal” é simples: rola de mão em mão todos os dias, é capaz de comprar gente e coisas e sem ele você é nada, zero e excluído. Mas graças a capacidade humana de criação, um tal de Sérgio Bianchi foi capaz de explicar, desenhar e mapear essa raiz.
“Quanto vale ou é por quilo?” é uma verdadeira distribuição de tapas na cara. O filme é de 2005 e foi capaz através de uma linguagem violenta e obscena de mostrar a verdadeira cara do assistencialismo em nosso país. E não há como fugir: estamos em uma verdadeira “crise de valores” e independente do lado que você escolher é impossível se eximir de certas responsabilidades. A mais-valia está agregada nas relações sociais e esta simbiose tem uma força tão sobrenatural que consegue controlar as cordas que movem até mesmo a tão conhecida solidariedade. O filme faz uma ligação realista em formato de documentário fictício (ou vice-versa) entre duas épocas: século XIII época da escravidão explicita e dias atuais época da escravidão implícita.
Três humores do filme: A Regra do Favor, ONGs e O Escravo.
A Regra do Favor: Você tem que pagar, mesmo que o produto caminhe, fale e respire de vez em quando.
Uma amiga lhe faz um favor financeiro. Favores de acordo com as leis da boa sociabillização devem ser pagos. Você não tem dinheiro para paga-la. Mas ela faz questão de receber a divida. O quê fazer?
Lembra daquela criança pobre que você cria tão solidariamente? Porque você não a empresta para sua amiga? Afinal: ela é limpinha, cozinha bem, lava roupa e nem come muito.
ONGs: Quer adotar uma criança, um velhinho ou um cachorro anão de três pernas?
É estranho saber que as famosas organizações não governamentais andam brigando por cabeças de pessoas miseráveis. O produto “pessoa miserável” está em falta no mercado. A miséria gera mais renda do que imaginamos. De acordo com as estatísticas o dinheiro gerado pelo “Terceiro Setor” no Brasil seria capaz de dar para cada criança abandonada 10.000 dólares por ano.
Obs 1: essas crianças das estatísticas continuam abandonadas.
Obs 2: depois de saber disso me questionei: quanto será que gastaram para levantar esta estatística?
O Escravo: “Me solte seu moço!”, “Sou um profissional responsável e com boas referencias”, “ Fui o melhor aluno da classe”
A escravidão é um ciclo: Ontem eu tinha um dono e fazia de tudo para conseguir minha alforria. Hoje, saio pelas ruas, com currículo na mão, a procura de algum dono que me contrate por algumas horas, meses ou se tiver a sorte por anos.
Lisa Alves
Espaço do leitor:
- Lisa Alves lisaallves@gmail.com,
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