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Sexta-feira, Agosto 22, 2008
Imagem: Victor Cauduro
MANIFESTO POTENCIALISTA
CAPÍTULO - 22.1 DA ENGENHARIA REVERSA E DA ENGENHARIA SOCIAL.
“Aqueles que tiveram a oportunidade de se consagrar nos estudos científicos
deverão ser os primeiros a pôr seus conhecimentos a serviço da Humanidade.”
Karl Marx
Este texto está sendo digitado num computador contrabandeado do Paraguai. Trata-se de uma prática comum na maioria das cidades do Brasil: a venda de produtos eletrônicos oriundos de mercados contrabandistas. As lojas de informática especializaram-se em montar microcomputadores conforme a vontade do comprador, que opta pelo processador, pelas memórias RAM, pela placa-mãe e pelo HD que seja de seu interesse – ou compatível com suas finanças. O resultado costuma ser bastante positivo: no mínimo 37% mais barato que um PC “legal”. Garantia geralmente de um ano para todos os componentes. No caso deste monitor Samsung – o selo da Cidade do Leste não deixa dúvidas sobre sua origem – a garantia foi de três anos. E, por incrível que possa parecer, as lojas que trabalham com estes computadores contrabandeados concedem até nota fiscal.
O editor de texto utilizado para a composição deste capítulo é o Word 2003, que faz parte do pacote Office XP, instalado integralmente nesta máquina. O que inclui o gerador de slides PowerPoint, a planilha eletrônica Excel, o Access e dois outros programas cuja serventia é um completo mistério. O sistema operacional é o Windows XP, muitos apologistas do Linux vão chiar com esta afirmação. Se servir de desculpa, há também o Linux-Kurumin instalado nesta máquina em outra partição, porém não interessa. Qualquer pessoa tem o direito de escolher os softwares que deseja utilizar desde que não pague por eles. Além do Windows XP, do Office, ambos os produtos da todo-poderosa Microsoft, neste computador estão instalados o antivírus Norton 2005, da Symantec, uma versão eletrônica do dicionário Houaiss (com o mesmo número de verbetes e recursos idênticos), o Acrobat 4.0 e o Photo Shop, ambos da Adobe, o CorelDRAW 11, da Corel, além de dezenas de pequenos aplicativos como ACDSee, Globalink e Download Accelerator que possuem seriais e teoricamente exigiriam licenças. Claro, teoricamente.
Há bastantes jogos no disco rígido de algumas das gigantes do entretenimento eletrônico, como Nintendo, Sony, Rockstar, Ubisoft, Sega, Atari, Konami, Capcom, SNK e Electronic Arts. Todos esses programas, aplicativos e jogos somados custariam uma fortuna. Obviamente, não foi pago nenhum centavo por eles. E, para os que tiverem interesse em ter acesso a estes softwares, estão guardados todos os CDs de instalação, os quais podem ser copiados à exaustão com muita boa-vontade e com custo zero.
Este PC guarda cem mil músicas em formato MP3. Em sua maioria, álbuns completos abarcando uma variedade incrível de gêneros. Há alguns dos melhores trabalhos de Chico Buarque, Cartola, Chico Science, Mercedes Sosa, Tom Jobim, Marcelo D2, Tim Maia, Toquinho, Belchior, Elis Regina, Oswaldo Montenegro, Adriana Calcanhoto, Jorge Ben Jor, BNegão, Ney Matogrosso, Bezerra da Silva, Dicró, Nara Leão, MV Bill, Milton Nascimento e Cazuza. Todos os álbuns da Legião Urbana, Camisa de Vênus, Paralamas do Sucesso, Racionais, Secos & Molhados, Engenheiros do Havaí, Los Hermanos, Pato Fu, Mutantes, Cordel do Fogo Encantado, Sepultura e de inúmeras bandas nacionais de maior ou menor repercussão. Pelo menos noventa trabalhos de música clássica e apesar das obras de Beethoven ou Bach já terem se tornado patrimônio da humanidade, podendo ser exploradas à exaustão, os músicos que executaram as versões podem, segunda a legislação vigente, requerer direitos autorais – o que não nos preocupa nem um pouco.
Todos os discos dos Beatles também estão aqui. Todos dos Rolling Stones, Velvet Underground, The Smiths, The Cure, Deep Purple, Joy Division, Simon & Garfunkel, Rage Against the Machine, Nirvana, Jethro Tull, U2, Pink Floyd, Led Zeppelin, Queen e The Clash. Alguns do Moody Blues, Men at Work, 2Pac, Kraftwerk, Pet Shop Boys, Louis Armstrong, De La Soul, Bob Dylan, Sex Pistols, Frank Sinatra, Ray Charles, James Brow, Coltrane, Miles Davis, Little Richard e Elvis Presley. Quarto trabalhos do Grand Funk, três do Funkadelic e dois do Afrika Bambaata. Pelo menos um CD de Linda Ronstadt, Morcheeba, Tangerine Dream, Paco de Lucia, Pato Banton, Ennio Morricone, Pizzicato Five e Mago de Oz. Muito David Bowie... Melhor parar por aqui.
Um exemplo retumbante da acessibilidade que o fenômeno da MP3 promoveu. Esta lista pode ter tratado pouco de autores nacionais, mas foi de modo intencional. O caso é que mesmo oficialmente, ou seja, em lojas de CDs, há dificuldade explícita de encontrar trabalhos de MPB. Bossa nova, samba e chorinho são geralmente limitados há alguns nomes ou coletâneas restritivas. Outras preciosidades foram esquecidas pela indústria fonográfica, substituídas pela mediocridade domingueira e pela prostituição musical do Espetáculo. O Movimento Potencialista está reunindo trabalhos raros da música popular e em breve estaremos disponibilizando pela internet – se as gravadoras não têm interesse, nós temos! – para tanto contamos com o apoio de colaboradores, que possam disponibilizar seus acervos.
Além de músicas baixadas “ilegalmente” na internet e de jogos eletrônicos escandalosamente pirateados, este computador tem filmes, programas que transformam CDs de áudio convencionais em MP3, gravador de DVD e programas que quebram o código dos DVD originais e de jogos de Playstation 2, possibilitando a feitura de cópias. Há livros em formato PDF, como, por exemplo, os notáveis textos de Campos de Carvalho que há muito foram esquecidos pelo mercado editorial. Também obras que estão disponíveis em qualquer livraria do país, pois, convenhamos, não dá para pagar tanto por um livro. E quadrinhos temos aos montes, a maioria baixada do site Rapadura Açucarada, que foi pioneiro na digitalização de HQs no Brasil.
A prática da Engenharia Social está revolucionando os métodos de transmissão de informação, colocando a arte contemporânea mais próxima da população em geral (mesmo que a internet ainda não esteja tão próxima). Obviamente apenas uma restrita parcela da população tem acesso a computadores – quadro que precisa ser urgentemente alterado, quebrar patentes é uma forma de realizar isto –, mas mesmo os que não fazem parte desta restrita parcela que possui ou tem acesso a computadores, mesmo estes acabam se beneficiando ao adquirir um CD “genérico”, que pode custar trinta vezes menos que um CD original. Há de se reconhecer que a popularização do CD no Brasil se deu graças à pirataria – ou melhor, graças à Engenharia Reversa. E a popularização do DVD seguiu os mesmos passos. Mas afinal, podem estar se perguntando alguns, o que é a Engenharia Reversa e a Engenharia Social?
Até meados do século XX, as artes em geral tinham alicerces ainda sólidos fincados na infra-estrutura da arte burguesa – embora seus temas já tivessem fugido da órbita elitista e almejasse uma concepção genuína para a velocidade e o frenetismo do recém-iniciado século, a arte continuava restrita a uma minoria e sua circulação era dependente dos salões, das galerias e dos museus. Claro que essas exposições eram realizadas geralmente para intelectuais ou elites um pouco mais abertas, dispostas a experimentar novos conceitos e experiências estéticas surpreendentes, pois as extravagâncias modernas estavam distantes demais do grosso da população.
Talvez se possa dizer que do pós-guerra em diante iniciou-se não só a fase em que o povo começou a ditar os caminhos da arte , também, e principalmente, nasceu a reprodutibilidade técnica das obras de arte. Ambos os eventos tem uma ligação estrita, porque se era o povo agora o grande consumidor de arte (como nos casos do samba brasileiro, do jazz, do blues e por fim do rock), era necessário a produção da arte em massa e, ao contrário do que pensam muitos, a produção em massa de cultura não empobreceu a arte, mas sim sua manipulação por empresários gananciosos, dispostos a tudo para sustentar a inacreditavelmente lucrativa indústria do Espetáculo. Esta revolução popular, a verdadeira vanguarda artística do século XX, substituiu a música clássica pela canção, as pinturas e os afrescos pelos quadrinhos e grafites, a ópera pelo cinema e a monotonia do balé pelo delírio do twist e do funk, fenômenos musicais que tomaram o mundo num instante juntamente com suas danças frenéticas. Neste ponto vale ressaltar não somente a importância da guitarra elétrica, que se tornou imediatamente símbolo da juventude, pois o denominador comum da maioria dos ritmos populares do século XX, principalmente dos anos 50 em diante, do samba ao rock’n’roll, é a forte presença de percussão. Geralmente influências africanas, sem as quais a música continuaria sendo harmônica, melódica, mas com zero por cento de suingue.
Apropriando-se das forças criativas em benefício próprio, o capitalismo se viu impelido a reforçar suas políticas de propriedade intelectual, que se tornaram de repente mais necessárias do que nunca e a fim de baratear custos e de possibilitar cifras ainda maiores, as tecnologias de reprodução precisavam ser constantemente aprimoradas. Isso gerou um curioso paradoxo, porque todas as vezes em que surgiam novas tecnologias, mais fácil se tornava a reprodução, não só para a indústria, bem como para o cidadão comum. Os primeiros discos graváveis de resina ou cera eram por demais toscos e caros e na época ninguém se preocupava seriamente com cópias – até porque esses discos se destinavam à gravação de sons ambientes. Mas quando surgiu as fitas magnéticas, tudo foi mudando lentamente de figura, e, de repente, se tornou relativamente barato realizar gravações. A fita K7 de áudio e audiovisual dominou o mercado da reprodução por décadas, causando prejuízos – ainda que mínimos – à indústria do Espetáculo. Houve reações. A famigerada Recording Industry Association of América, por exemplo, se esforçou por proibir a produção dos gravadores de fita, porém o máximo que conseguiu foi restringir o comércio das chamadas DAT (Digital Audio Tape). Nem imaginavam que o verdadeiro fenômeno estava por vir. Quando apareceu o primeiro CD gravável e especialmente quando o CD gravável se tornou acessível, a indústria fonográfica viu-se diante de uma realidade totalmente nova, pois, em países como o Brasil, a pirataria passou a ter rendimentos mais altos do que as gravadoras oficiais, a ponto de colocar o sistema produtor de entretenimento à beira de um colapso. E a indústria descobriria mais tarde, sempre da pior maneira possível, que o CD fora apenas o princípio.
Todos se lembram do caso Napster e do alvoroço que provocou um jovem estudante de cabelos arrepiados que teve a brilhante idéia de utilizar redes p2p para compartilhar músicas gratuitamente pela internet em formato MP3. A indústria reagiu imediatamente, movendo infinitos processos contra a Napster Inc., que acabou nas mãos da Bertelsmann, um dos grandes nomes da indústria do entretenimento fonográfico. Assim foi decretado a morte do Napster, não de sua iniciativa revolucionária. A idéia fora lançada e mais de dez alternativas possíveis, de melhor ou pior qualidade, de maior ou menor eficiência, surgiram na internet, para cobrir o vazio deixado pela oficialização do Napster. Daí vieram os sistemas de compartilhamento de arquivos, a segunda geração das redes peer-to-peer , entre os mais famosos o KaZaA, o Imesh e o Morpheus, que fizeram por anos a alegria de tantos usuários.
Isso é a Engenharia Reversa, a capacidade de burlar a inflexibilidade dos sistemas regidos pelas leis pré-históricas de direitos autorais, para o benefício geral das massas. Nesses sistemas tecem-se relações muito interessantes entre indivíduos totalmente alheios uns aos outros, de cooperativismo, camaradagem e diletantismo, que desmentem o capitalismo em sua essência e revelam que, dando-lhes condições para tanto, as pessoas podem ser muito mais solidárias do que se imagina. Um dos exemplos mais notáveis é a campanha internacional que vinha sendo realizada na rede, pelo recrutamento de ciberpiratas para trabalharem na criação e aprimoração do emulador de Playstation 2. Mas há outros fatos que merecerem ser listados:
1º) A grande maioria daqueles que criam esses sistemas alternativos não espera receber nada com isso, além do prazer de trocar arquivos com outros internautas e de disponibilizar seus próprios arquivos;
2º) Para fazer parte de uma rede de compartilhamento, quase nunca é obrigatório que se disponibilize arquivos para os outros usuários do sistema. Porém a compreensão geral de que se todos agirem assim, fechando suas portas, não haverá arquivo algum para se baixar, desencoraja essas posturas (as pessoas se auto-regulam, sancionam inteligentemente suas próprias leis);
3º) Sempre quando um desses sistemas é desmantelado, cria-se uma alternativa ainda mais impenetrável, que logo é novamente colocada na internet para a alegria de milhões de usuários;
4º) Trocando-se arquivos na internet, favore-se uma postura diferenciada daquela que por tantos anos imperou na Sociedade do Espetáculo. Ao invés de seguir em linha reta, a cultura agora se expande para os lados, tão dinâmica que faz inveja à mais aprimorada campanha de marketing de Hollywood e sem sofrer os esperados efeitos da cultura de ocasião: aquela arte datada, própria para se ver agora e incompreensível na manhã seguinte. Não é à toa que os sites de compartilhamento colocam lado a lado para se baixar as maiores novidades do cinema, que estrearam nos EUA há menos de uma semana, obras-primas com mais de quarenta anos, além de seriados esquecidos ou ignorados por muitos, desenhos animados que são verdadeiros achados, e curtas-metragem que nunca chegariam a locadora alguma. A miscelânea cultural ignora idades, sexos ou prazos de validade. Nada é mais anacrônico que a internet.
E a contravenção dos direitos autorais ameaça agora Hollywood, que começa a sentir no bolso a facilidade que se tornou baixar filmes na internet, graças ao melhoramento da velocidade da rede mundial de informação e aos novos sistemas de compartilhamento, chamados torrents, muito mais eficientes do que aqueles que existiam até então. Além da indústria cinematográfica, a telefonia em breve estará perdendo milhões para as ligações feitas através da internet, em sistemas como o Skype, que faltamente seguirá os mesmos passos do Napster, aliando-se à iniciativa privada. O caminho, entretanto, terá sido indicado e os engenheiros sociais da rede mundial de informação elaborarão outras maneiras de chegarmos aos mesmos resultados: ligações gratuitas para qualquer ponto da Terra.
Não há sequer meios de imaginar no que mais as tecnologias da informática e da microeletrônica vão nos favorecer. Apesar da empolgação, convém que não nos empolguemos exageradamente: a revolução não será baixada na internet. O ciberespaço é um meio, não um fim.
Alguns acreditaram que a reprodutibilidade técnica de obras de arte enfraqueceria a arte enquanto tal e por fim a transformaria num reles produto. Porém não foi a reprodutibilidade que lançou a arte na mesma prateleira das mercadorias e sim a indústria do Espetáculo. Agora que não dependemos mais da indústria para reproduzir infinitamente as criações humanas, devemos voltar nossos esforços na destruição da indústria e dos demais organismos que sustentam idéias obsoletas como a propriedade intelectual e os direitos autorais.
O xerox foi uma das invenções mais importantes do homem e está em qualquer esquina do centro de qualquer cidade. Deve servir para algo mais do que tirar cópias de documentos e contratos.
Viva a pirataria!
A propriedade intelectual é um plágio!
Espaço do leitor:
- Lisa Alves lisaallves@gmail.com, 1:21 PM
Segunda-feira, Junho 23, 2008
ENTREVISTA
Primeiro-tenente Peer Uhlmann, representante dos interesses dos afiliados homossexuais do Exército alemão.
22/06/08
Fonte: Literatura Clandestina
Hitler
http://br.youtube.com/watch?v=lAi7UnXp9Aw
Como membro da diretoria do Círculo de Trabalho dos Afiliados Homossexuais do Exército alemão (AHsAB e.V.), o senhor poderia nos relatar como o Exército alemão lida com a homossexualidade?
Desde fins do ano 2000, existe no Exército alemão um decreto feito para regulamentar a forma de relacionamento, sobretudo entre homens e mulheres, dentro e fora do expediente. Graças à então iminente abertura do Exército para mulheres e graças a um militar combatente, a liderança do Exército foi obrigada a discutir intensamente o tema da tolerância. Pela primeira vez, um decreto do Exército tematizou explicitamente o relacionamento privado dos militares.Anteriormente, a sexualidade em si não existia, ela era assunto privado e não tinha nada a ver com o serviço. O decreto deveria sobretudo esclarecer as conseqüências dos contatos privados, principalmente entre mulheres e homens. Mas também a homossexualidade foi abordada no decreto.Segundo a diretiva, é indiferente para os superiores quem tem uma relação com quem e de que forma a desfruta. O importante é que o trabalho não seja prejudicado por esta relação. No que concerne a isto, o Exército alemão não difere das empresas da economia livre.
Até que ponto o decreto sexual de dezembro de 2000 atingiu o objetivo da igualdade de tratamento entre os sexos?
Em um exército, em princípio, a patente, a performance e a capacidade dos soldados são mais importantes que suas preferências pessoais. Se um soldado é gay ou não, isto não interessa à execução de suas tarefas. Também na avaliação de seu rendimento e nas promoções, isto não deveria ter nenhuma importância. Escapa a qualquer controle, no entanto, o fato de preconceitos escondidos exercerem aí influência. O mesmo vale, por exemplo, para militares femininos e masculinos de origem migratória.O que os militares fazem depois do serviço, em casa ou em sua acomodação, é desinteressante desde que outros não sejam perturbados. Tanto faz se um soldado recebe seu namorado ou sua namorada em sua casa.O decreto é um bom ponto de partida, mas ele não pode combater a intolerância – encontrada em todos os níveis hierárquicos – nas cabeças das pessoas. Nesse caso, principalmente a responsabilidade dos superiores é requisitada. Apesar do decreto, faltam aí, em muitos casos, a necessária sensibilidade e um tratamento sem preconceitos do tema. Sobretudo discriminações veladas não se deixam excluir.
Existem casos de transferências ou queixas de militares femininos e masculinos que assumem abertamente sua homossexualidade e por isto são discriminados?
Até os anos de 1980, era normal excluir homossexuais masculinos do serviço militar por serem inaptos. Em 1999, um oficial apelou ao Tribunal Federal Constitucional contra sua transferência devido à sua tendência homossexual. A justificativa do Ministério estava cheia de preconceitos: o moral da tropa não poderia ser prejudicado, a autoridade de um superior homossexual seria minada, etc. A Justiça não apoiou esta argumentação. Encontrou-se então em consenso extrajudicial.Conhecemos casos em que militares homossexuais, bissexuais ou também transgêneres foram zombados, evitados ou desacreditados às escondidas. Aí se encontra o verdadeiro problema. Esta forma de discriminação é difícil de controlar, ela prejudica o ambiente de trabalho e influencia outras pessoas que, em princípio, não tinham preconceitos. Se os superiores não agirem corretamente, um tratamento aberto do tema homossexualidade é quase impossível.
É possível avaliar quantas pessoas homossexuais fazem parte do Exército alemão?
Também o Exército é um perfil da população. Quase todas as facetas da nossa sociedade estão representadas, só que estas não são reconhecidas, por baixo do uniforme, à primeira vista. É alto o número daqueles que renegam sua orientação sexual no Exército alemão, por medo de conseqüências negativas. Somente poucos têm a coragem de assumi-la abertamente e, por exemplo, registrar perante seus superiores uma parceria civil homossexual. Acreditamos que cinco a dez por cento dos membros do Exército alemão são homossexuais.Em 2006, a revista Der Spiegel relatou que o Ministério alemão da Defesa queria evitar que soldados em viagens de serviço freqüentassem áreas próximas a bares gays, impedindo assim conseqüências negativas para a imagem do Exército alemão.
Isto não seria uma forma de discriminação?
Esta tentativa do Ministério alemão da Defesa foi novamente marcada por preconceitos. O caso mostra claramente que, sobretudo em escalões mais altos, também na política, as pessoas ainda têm muitas reservas. Mas, em vez de discutir os problemas de forma construtiva, eles são transformados em tabu. Claro que isto é uma forma de discriminação.E sempre há novos casos. Há pouco, a organização que representa os interesses dos membros do Exército, a Federação Alemã dos Militares, exigiu no tocante ao tema igualdade de direitos a exclusão das parcerias civis homossexuais, no parecer que deu sobre a lei de realinhamento dos serviços públicos. A justificativa foi que isto seria muito complexo e precisaria de uma lei própria.Então nos perguntamos para quê. Isto poderia ser muito fácil: igualdade de direitos – e pronto! A passagem "parcerias civis são equivalentes em todos os pontos ao casamento" poderia esclarecer todas as questões de uma só vez. Mas isto é demais para muitos conservadores.Esta forma de discriminação através de leis não é rara na Alemanha. Atualmente, existem muitos casos de tratamento desigual no tocante à remuneração, benefícios e aposentadorias. Eu mesmo estou lutando pelo complemento familiar. Casados o recebem, eu e o meu parceiro não – e isto, ainda que nos encontremos objetivamente em situação semelhante.
Que atividades e objetivos persegue o Círculo de Trabalho de Afiliados Homossexuais do Exército? Quantos membros possui?
Nós temos atualmente por volta de 100 membros. Como o Exército alemão está presente em todo o país, também estamos representados em toda a Alemanha. Nós estamos à disposição dos soldados no local – não somente dos homossexuais que têm problemas com seus camaradas e superiores – também dos superiores que precisam de ajuda para lidar com soldados, soldadas e funcionários civis homossexuais.Em seminários para superiores, nós estimulamos a desmontagem de preconceitos e intolerância. Nossa organização existe desde 2002 e agora se engaja na discussão política. Estamos em troca ativa com outras representações de interesses e estabelecemos contatos com a política para defender os interesses dos nossos membros. Também procuramos a divulgação pública, por exemplo, nas paradas de orgulho homossexual, e lutamos contra o preconceito que não existem militares gays.Assumir uma tendência homossexual é muito difícil para muitos soldados jovens. Nós os aconselhamos e os acompanhamos para que possam desfrutar das nossas experiências.
Como é a situação em outros países europeus? Existem organizações como a AHsAB em outros países?
Cada Exército é único. As preocupações e necessidades dos soldados diferem de país para país. Em muitos países, existem organizações que ajudam os afiliados homossexuais das Forças Armadas – em alguns países de forma mais ofensiva, em outros, mais escondida. Para isto, a situação política e a aceitação social são decisivas. A longo prazo, nos engajamos naturalmente por cooperações e pela troca de experiência com estas representações de interesses, também no estrangeiro.
Na sua opinião, por que os Exércitos de muitos países têm problemas com militares homossexuais?
Os Exércitos formam sua coesão através da tradição e do espírito de corpo. Muitas das formas de comportamento se assemelham a rituais. E aí a homossexualidade não tem espaço.É um tema que não é tratado abertamente. Nestas unidades marcadas por uma masculinidade exacerbada, a homossexualidade é considerada uma fraqueza. Principalmente nas unidades em que a forte coesão é importante, como no caso de unidades de combate.
Que soldado forte quer escutar isso sobre ele?
Os processos de dinâmica de grupo levam a um banimento de comportamentos que variam da maioria. Por isso, soldados gays não assumem freqüentemente sua homossexualidade. O resultado é que esta não é tematizada. Quando ele ou ela a assume, isto é visto como fraqueza, como exceção. Teme-se o desconhecido e evita-se o contato. Em caso extremo, o militar está, de repente, isolado.
O pedagogo Peer Uhlmann, nascido em 1980, é membro da AHsAB e.V. desde 2004 e a partir de 2008 faz parte de sua diretoria. Ele entrou no Exército em 1998, tendo agora o posto de primeiro-tenente. Atualmente, Uhlmann trabalha no serviço de imprensa em Mayen, próximo a Koblenz.
Espaço do leitor:
- Lisa Alves lisaallves@gmail.com, 12:14 PM
Terça-feira, Maio 13, 2008
CINEMA
Título Original: Quanto Vale ou é por Quilo?
Gênero: Drama
Duração: 104 min.
Lançamento (Brasil): 2005
Estúdio: Agravo Produções Cinematográficas S/C Ltda.
Direção: Sérgio Bianchi
Roteiro: Sérgio Bianchi, Eduardo Benaim e Newton Canitto
Quanto vale ou é por quilo?
Chega da obviedade do cinema brasileiro: miséria e violência são tratadas como novidades. Tem gente que se surpreendeu com a realidade de Cidade de Deus e Tropa de Elite como se a miséria e violência humana fossem filhos gerados em um útero fecundado da própria miséria e violência. Cadê a raiz? Alguém esqueceu de mostrar o porquê de um ser humano chegar ao ponto de atirar no outro. A policia trabalha, o bandido também trabalha, a policia come, o bandido também come, a policia paga para viver e o bandido idem. Consumir é necessário, quem não consome, some! O “senhor de todo o mal” é simples: rola de mão em mão todos os dias, é capaz de comprar gente e coisas e sem ele você é nada, zero e excluído. Mas graças a capacidade humana de criação, um tal de Sérgio Bianchi foi capaz de explicar, desenhar e mapear essa raiz. “Quanto vale ou é por quilo?” é uma verdadeira distribuição de tapas na cara. O filme é de 2005 e foi capaz através de uma linguagem violenta e obscena de mostrar a verdadeira cara do assistencialismo em nosso país. E não há como fugir: estamos em uma verdadeira “crise de valores” e independente do lado que você escolher é impossível se eximir de certas responsabilidades. A mais-valia está agregada nas relações sociais e esta simbiose tem uma força tão sobrenatural que consegue controlar as cordas que movem até mesmo a tão conhecida solidariedade. O filme faz uma ligação realista em formato de documentário fictício (ou vice-versa) entre duas épocas: século XIII época da escravidão explicita e dias atuais época da escravidão implícita.
Três humores do filme: A Regra do Favor, ONGs e O Escravo.
A Regra do Favor: Você tem que pagar, mesmo que o produto caminhe, fale e respire de vez em quando.
Uma amiga lhe faz um favor financeiro. Favores de acordo com as leis da boa sociabillização devem ser pagos. Você não tem dinheiro para paga-la. Mas ela faz questão de receber a divida. O quê fazer?
Lembra daquela criança pobre que você cria tão solidariamente? Porque você não a empresta para sua amiga? Afinal: ela é limpinha, cozinha bem, lava roupa e nem come muito.
ONGs: Quer adotar uma criança, um velhinho ou um cachorro anão de três pernas?
É estranho saber que as famosas organizações não governamentais andam brigando por cabeças de pessoas miseráveis. O produto “pessoa miserável” está em falta no mercado. A miséria gera mais renda do que imaginamos. De acordo com as estatísticas o dinheiro gerado pelo “Terceiro Setor” no Brasil seria capaz de dar para cada criança abandonada 10.000 dólares por ano.
Obs 1: essas crianças das estatísticas continuam abandonadas.
Obs 2: depois de saber disso me questionei: quanto será que gastaram para levantar esta estatística?
O Escravo: “Me solte seu moço!”, “Sou um profissional responsável e com boas referencias”, “ Fui o melhor aluno da classe”
A escravidão é um ciclo: Ontem eu tinha um dono e fazia de tudo para conseguir minha alforria. Hoje, saio pelas ruas, com currículo na mão, a procura de algum dono que me contrate por algumas horas, meses ou se tiver a sorte por anos.
Lisa Alves
Espaço do leitor:
- Lisa Alves lisaallves@gmail.com, 1:13 PM
Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008
NÃO ACORDEM CTHULHU
ou a verdadeira história da bela adormecida
E no princípio era o Nada
(e continuamos aqui graças a Ele)
Em 2003 a análise de dados do satélite-telescópio WMAP leva os cientistas a uma conclusão considerada absurda, porém incontestável: a de que 73% do peso do Universo vem do vazio. E este vazio, de acordo com os físicos, não passa de energia cristalizada que por sua vez não passa de partículas que existiram antes do Big Bang que se acalmaram com o resfriamento do Universo.
De súbito descobrimos que aquilo que considerávamos ausência ou nada, na realidade, é muita coisa, apesar de não poder ser detectado pelos nossos sentidos. Aprendemos que onde não têm mais, só pode ter menos, onde está quente não pode estar frio, o que é concreto não pode ser abstrato. O paradoxo é esculpido entre a intenção de ser e a de não ser. E quando descobrirmos que não existem diferenças ou que as diferenças se originam da mesma raiz ?
O ser humano é um animal racional que tem o privilégio de comparar, escolher, criar e dar ação ao pensamento. Todas nossas escolhas e criações se originam do ato de comparar ou seja: construímos a civilização que conhecemos à base de comparações. Na política, na religião, na matemática, no sexo, nas artes, na guerra, existem lados opostos: lados que, segundo nossa capacidade de distinção, não combinam. E se de repente perdêssemos esta capacidade de distinção que adquirimos através das comparações que fizemos durante todo o período de vida? Com certeza, se esta mutação dos conceitos acontecesse em um único período e com uma grande parte da civilização, teríamos uma mudança nunca antes imaginada na economia, as religiões se extinguiriam ou se uniriam, a matemática tomaria um outro rumo e grande parte das diferenças se igualariam.
E porquê se concretizaria uma mudança? Por nada... Isto mesmo! Ou melhor, pelo nada. Já que o nada é um monstro que está adormecido, é preciso acorda-lo. Os físicos já observaram partículas entrando e saindo do vácuo após uma colisão causada por aceleradores de partículas. Através destes aceleradores o nada é acordado aos poucos, no entanto, as conseqüências de acorda-lo por inteiro são ignoradas pela ciência e pelo homem. Poderíamos ser tragados pela energia invisível ou até mesmo sermos transportados para uma dimensão somente descrita nos livros de ficção científica.
Lisa Alves
Espaço do leitor:
- Lisa Alves lisaallves@gmail.com, 6:54 PM
Quarta-feira, Janeiro 09, 2008
Da Quebra do Conceito Inteligência
(Texto tirado da gaveta, cheiro de mofo e idéias que ainda me fazem perder o sono)
"Gott ist tot" - Friedrich Nietzsche
Seres humanos são conceituados de seres conscientes de sua própria existência. A consciência é a digital humana. Seria então provável a capacidade humana de criar um outro ser que tenha consciência de si? E será que nós seres bímanos racionais temos realmente consciência do que somos ou apenas nos definimos com conceitos vagos do tipo: Sou uma estudante, tenho vinte e dois anos, nenhum filho e muitos vícios. Chegará um dia em que o ser humano se definirá como uma maravilhosa máquina biológica adaptada para sobreviver e interagir com o meio-ambiente?
Seres humanos são definidos de consciências inteligentes capazes de julgar suas atitudes e separar o bem do mal. O fator que predomina neste conceito é: o que é inteligência? Qual ciência humana poderá definir com exatidão o que chamamos de inteligência? Podemos exemplificar a falha nos conceitos humanos-científicos lembrando de alguns anos atrás quando a sonda espacial Galileu foi criada com a missão de estudar Júpiter e programada para detectar a existência e possibilidade de vida inteligente no planeta. Detalhe: foi dedicado ao projeto o que havia de mais avançado em tecnologia de computadores e inteligência humana. No entanto a sonda passou pela Terra e o programa foi iniciado. Chegou para os cientistas o seguinte “diagnóstico”: 30% de chance de haver vida na Terra e 0% de chance dessa vida ser inteligente. Pois é, na vida, geralmente, nada que acontece é o mais esperado.
Entendendo o conceito de inteligência poderemos começar a pensar na possibilidade de criar outro tipo de inteligência, outro tipo que tenha consciência de si. Ultimamente têm se discutido muito sobre IA (Inteligência Artificial) e cada vez que este assunto é posto em pauta surge também o medo do homem de ser dominado por aquilo que ele mesmo criou. O Criador sempre teme a sua criação quando ela começa a tomar consciência de si. E da mesma forma que temos a necessidade de criar, nossa criação “artificial” poderá decidir criar mais uma nova inteligência e nos eliminar por sermos tão ultrapassados e desnecessários para a evolução no planeta Terra. Foi assim que matamos Deus.
Lisa Alves
Espaço do leitor:
- Lisa Alves lisaallves@gmail.com, 1:29 PM
Sábado, Setembro 29, 2007
MOVIMENTOS QUE MANIFESTAM A METAMORFOSE COLETIVA
A RAWA, Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão, é a única organização política/social feminista das mulheres afegãs e anti-fundamentalista.
Luta pela paz, liberdade, democracia e pelos direitos das mulheres.
Visitem o site:
http://www.rawa.org
Lisa Alves
Espaço do leitor: - Lisa Alves lisaallves@gmail.com, 11:32 AM
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